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Luísa

“Você faz isso para me afrontar, né menina!!’’
“Mas você não faz nada direito, garota!’’
“Desse jeito ninguém vai te querer!’’


Era o que Luísa ouviu de sua mãe a vida toda. A sensação era que nada do que ela fizesse era bom o suficiente. Não recebia apoio e reconhecimento, os momentos de carinho eram raros e nunca sabia como seria o próximo passo com sua mãe, que tinha mudanças drásticas de humor. A lembrança marcante que tinha de sua infância era sua mãe tomando café, fumando um cigarro atrás do outro, com olhar distante e achava que aquela tristeza era pelo abandono de seu pai. Estava sempre tentando preencher esse buraco na tentativa de ver sua mãe bem e por isso cresceu sempre atenta, relaxar era difícil, pois o medo de errar era maior.                                 
Luísa passou um bom tempo acreditando que não merecia o melhor, o justo, acabava se sujeitando a situações desconfortáveis, sentia revolta e tristeza pelo abandono de seu pai, o convívio com sua mãe era tão perturbador que acabava se afastando, muitas vezes passava dias fora de casa. Fazia uso abusivo de álcool, assim se desconectava dos problemas, conseguia interagir sem medos e travas. Nos relacionamentos se viu muitas vezes inferiorizada, objetificada, manipulada, mas acabava aceitando os desconfortos com medo de não ser aceita. Nos trabalhos em que passou muitas vezes passou por situações assediadoras que acreditou ser normal. Não se relacionava com proximidade dos familiares pois sua mãe se isolava da família. Casou cedo na esperança de viver uma vida diferente, no início seu marido era muito educado, inteligente, gostava de dar presentes até mesmo fora das datas especiais, tinha o sonho de ser pai e sempre dizia queria muito construir uma linda família com Luísa. Mas o sonho do filho foi ficando para trás, pois Luisa não engravidava e seu marido começou a acusá-la de não querer dar um filho a ele, que não o amava. Na época, Luisa estudava administração e sonhava em terminar a faculdade, pois foi quando começaram a pressão psicológica e a violência verbal de seu marido, que naquela altura se mostrava controlador e agressivo. Quando Luísa começou a estagiar ele  levava e buscava em todo lugar, tentava sabotá-la a todo momento, na época das provas da faculdade mudava o humor, quase não conversava, se mantinha distante, deixando Luisa preocupada, que quando questionava o comportamento acabavam em discutindo e ele falava que ela não precisava estudar porque não ia conseguir trabalho, que só quem era muito inteligente conseguia alguma vaga. Mesmo com todas as dificuldades conseguiu se formar, ficando um tempo sem conseguir trabalho e nesse período seu marido cortou qualquer acesso ao dinheiro, ela sempre tinha que pedir dinheiro e dar explicações, se achasse que fosse futilidade, muito caro ou que não valesse a pena, ele negava. Essas atitudes causavam sofrimento enorme em Luísa, que lembrava de como sua mãe a tratava na infância. Foram anos de violência psicológica, verbal e patrimonial até que na pandemia, seu marido que ficou desempregado passou a ser mais violento chegando a agredi-la.
Luísa passou parte da sua vida acreditando que agradar era uma forma de ser aceita, mas cansada de estar machucada, passou por um doloroso processo de separação e o medo do novo começo. Se afastou de pessoas, lugares, situações que lhe fizessem mal e passou a estar onde era agradável, saudável. Com anos de terapia conseguiu compreender que não precisava ser suficiente para ninguém, que deveria respeitar seus limites, seu tempo e que merecia viver com respeito e amor.